
ACORDO DA SIMULAÇÃO com um grito. Meu lábio arde, e, quando afasto a mão
dele, há sangue nas pontas dos meus dedos. Devo tê-lo mordido durante o
teste.
A mulher da Audácia que está administrando o meu teste de aptidão –
Tori, como disse se chamar – olha para mim com uma expressão estranha
ao prender o cabelo preto em um coque. Seus braços são marcados de cima
a baixo com tatuagens: chamas, raios de luz e asas de gavião.
– Enquanto estava na simulação... você tinha consciência de que não era
real? – pergunta Tori ao desligar a máquina. Ela soa e age de forma natural,
mas sua naturalidade é calculada, resultado de anos de prática. Percebo
isso de imediato. Eu sempre percebo.
De repente, ouço o meu próprio batimento cardíaco. Isso é o que meu
pai disse que aconteceria. Ele sabia que me perguntariam se eu estava
consciente durante a simulação. E me preparou para o que eu deveria
responder.
– Não – falo. – Se eu estivesse, acha que teria mordido o lábio deste
jeito?
Tori me estuda por alguns segundos, depois morde a argola em seu lábio
antes de responder:
– Parabéns. Você apresentou um resultado típico da Abnegação.
Faço que sim com a cabeça, mas a palavra “Abnegação” é como uma
corda ao redor do meu pescoço.
– Não ficou satisfeito? – pergunta ela.
– Os membros da minha facção ficarão.
– Não perguntei sobre eles, perguntei sobre você. – Os cantos da boca e
dos olhos de Tori desabam, como se carregassem pesos. Como se ela
estivesse triste por algum motivo. – Esta sala é segura. Você pode falar o
que quiser aqui.
Eu sabia quais seriam as minhas opções no teste de aptidão antes
mesmo de chegar à escola hoje de manhã. Escolhi a comida, e não a arma.
Joguei-me na frente do cachorro para salvar a menininha. Eu sabia que
depois de fazer essas escolhas o teste terminaria e o resultado seria
Abnegação. E não sei se faria escolhas diferentes se meu pai não tivesse me
preparado e controlado todos os aspectos do meu teste de aptidão a
distância. Então, o que eu estava esperando? Qual facção queria?
Qualquer uma. Qualquer uma, menos a Abnegação.
– Estou satisfeito – respondo com firmeza. Não importa o que ela diz.
Esta sala não é segura. Não existem salas seguras, assim como não existem
verdades seguras ou segredos que possam ser contados com segurança.
Ainda consigo sentir os dentes do cachorro se fechando no meu braço,
rasgando a minha pele. Assinto para Tori e começo a caminhar em direção
à porta, mas, antes que eu saia, ela agarra o meu cotovelo.
– É você quem precisará conviver com a sua escolha – diz ela. – Os
outros vão superar, seguir em frente, não importa a sua decisão. Mas você
nunca conseguirá fazer isso.
Abro a porta e saio da sala.
+++
Volto para o refeitório e me sento à mesa da Abnegação, entre pessoas que
mal me conhecem. Meu pai não permite que eu frequente a maioria dos
eventos da comunidade. Ele alega que eu causaria algum transtorno, faria
algo para prejudicar a sua imagem. Eu não ligo. Fico mais feliz em meu
quarto, na casa silenciosa, do que entre os membros deferentes e
obsequiosos da Abnegação.
No entanto, a consequência da minha ausência constante é que os outros
membros da Abnegação desconfiam de mim, convencidos de que há algo de
errado comigo, de que sou um enfermo, um imoral, um estranho. Mesmo
quem está disposto a me cumprimentar com um aceno de cabeça não
encara diretamente os meus olhos.
Sento-me abraçando os joelhos e observo as outras mesas enquanto os
alunos terminam seus testes de aptidão. A mesa da Erudição está coberta
de papéis, mas nem todos estudam. Eles estão apenas se exibindo, trocando
conversas, e não ideias, voltando os olhos de novo para as palavras sempre
que desconfiam que alguém está olhando. Os membros da Franqueza falam
alto, como sempre. Os integrantes da Amizade riem, gargalham, tiram
comida dos bolsos e distribuem entre si. Os membros da Audácia são
barulhentos, largam-se sobre as mesas e cadeiras, apoiam-se nos amigos,
cutucam e implicam uns com os outros.
Eu preferiria qualquer outra facção. Qualquer outra facção que não fosse
a minha, em que todos já decidiram que não sou digno de atenção.
Finalmente, uma mulher da Erudição entra no refeitório e levanta a
mão, pedindo silêncio. Os membros da Abnegação e da Erudição se calam
na mesma hora, mas ela precisa gritar para chamar a atenção dos
integrantes da Audácia, Amizade e Franqueza.
– Os testes de aptidão estão concluídos – anuncia ela. – Lembrem-se de
que vocês não têm permissão de discutir seus resultados com ninguém,
nem mesmo seus amigos e familiares. A Cerimônia de Escolha será amanhã
à noite no Eixo. Tentem chegar com pelo menos dez minutos de
antecedência. Vocês estão liberados.
Todos correm em direção às portas, menos as pessoas da nossa mesa,
que, antes de se levantarem, esperam os outros deixarem o refeitório.
Conheço o caminho que meus companheiros da Abnegação seguirão para ir
embora, passando pelo corredor e saindo pelas portas da frente, até o
ponto de ônibus. Eles talvez fiquem mais de uma hora lá, permitindo que as
outras pessoas embarquem na frente. Acho que não consigo mais suportar
esse silêncio.
Em vez de segui-los, escapo por uma porta lateral, saindo em um beco
ao lado da escola. Já fiz esse caminho antes, mas costumo me esgueirar
devagar por ele, tentando evitar ser visto ou ouvido. Hoje, quero apenas
sair correndo.
Corro até o final do beco e pego a rua vazia, saltando um buraco na
calçada. Meu casaco largo da Abnegação balança com o vento, e eu o deixo
escorregar por meus ombros até que ele fique sacudindo atrás de mim,
como uma bandeira, e então o solto. Puxo as mangas da camisa até os
cotovelos enquanto corro, desacelerando um pouco quando meu corpo já
não suporta manter a velocidade. Parece que a cidade inteira está passando
por mim, formando um borrão que mistura todos os prédios. Ouço o ruído
de meus passos como se fosse um som distante.
Afinal preciso parar, com os músculos ardendo. Estou no páramo dos
sem-facção, entre o setor da Abnegação e as sedes da Erudição e da
Franqueza, e das nossas áreas comuns. Em todas as reuniões de facção,
nossos líderes, geralmente representados pelo meu pai, afirmam que não
devemos temer os sem-facção e que devemos tratá-los como seres
humanos, não como criaturas violadas e perdidas. Mas nunca me ocorreu
temê-los.
Caminho até a calçada para poder olhar pelas janelas dos prédios. Em
geral, vejo apenas móveis antigos em cada cômodo vazio, com lixo
espalhado pelo chão. Quando a maioria dos habitantes da cidade foi
embora (o que certamente aconteceu, já que a nossa população atual não
ocupa todos os edifícios), ela não deve ter saído com pressa, porque os
lugares onde moravam estão muito vazios. Não sobrou nada de
interessante.
No entanto, quando passo por um dos edifícios de esquina, vejo algo no
interior. O cômodo do outro lado da janela está tão vazio quanto qualquer
um dos outros pelos quais passei, mas, do outro lado de uma porta, lá
dentro, vejo uma única brasa, um carvão aceso.
Franzo a testa e paro diante da janela para tentar abri-la. A princípio, ela
nem se move, mas depois que a sacudo ela se abre de repente. Passo o
torso primeiro, depois as pernas, desabando sem jeito lá dentro. Meus
cotovelos ardem ao rasparem no chão.
O edifício cheira a comida, fumaça e suor. Caminho devagar em direção à
brasa, atento a vozes que revelem a presença dos sem-facção, mas ouço
apenas o silêncio.
No cômodo seguinte, as janelas estão enegrecidas por tinta e sujeira,
mas deixam atravessar um pouco da luz do dia, permitindo que eu veja
catres enrolados espalhados por todo o chão do cômodo e latas velhas com
restos de comida seca presos no interior. No centro dele, há uma pequena
grelha sobre brasas. A maioria dos pedaços de carvão está branca, já
consumida, mas um deles ainda está aceso, sugerindo que quem esteve ali
não foi embora há muito tempo. E, a julgar pelo cheiro e pela quantidade de
latas e cobertores, havia um bocado de gente ali.
Sempre me ensinaram que os sem-facção não vivem em comunidade,
ficando isolados uns dos outros. Agora, vendo este lugar, pergunto-me
como pude acreditar nisso. O que os impediria de formar grupos, assim
como nós fizemos? É a nossa natureza.
– O que você está fazendo aqui? – pergunta uma voz, que me atravessa
como um choque elétrico. Eu me viro e vejo um homem sujo e de rosto
amarelado no cômodo ao lado, limpando as mãos em uma toalha
esfarrapada.
– Eu estava apenas... – Olho para a grelha. – Eu vi fogo. Só isso.
– Ah. – O homem enfia a ponta da toalha no bolso traseiro. Ele veste
calças pretas da Franqueza remendadas com tecido azul da Erudição e uma
camisa cinza da Abnegação exatamente igual à que estou vestindo. É
bastante esguio, mas parece forte. Forte o bastante para me machucar, mas
acho que ele não vai fazer isso.
– Obrigado, eu acho – diz ele. – Mas não há incêndio algum aqui.
– É, eu percebi – falo. – Que lugar é este?
– É a minha casa – responde o homem com um sorriso frio. Ele não tem
um dos dentes. – Não sabia que receberia visita, então não me preocupei
em arrumá-la.
Desvio o olhar para as latas espalhadas pelo chão.
– Você deve se revirar muito, para precisar de tantos cobertores.
– Nunca conheci um Careta que se intrometesse tanto na vida dos
outros. – Ele se aproxima de mim e franze a testa. – Você me parece um
pouco familiar.
Sei que é impossível eu tê-lo visto antes. Não onde moro, cercado por
casas idênticas, no bairro mais monótono da cidade, rodeado de pessoas
com roupas cinzentas idênticas e cabelos curtos idênticos. E então me
ocorre: embora meu pai se esforce para me manter escondido, ele continua
sendo o líder do conselho, um dos homens mais importantes da cidade, e eu
continuo parecido com ele.
– Perdão por tê-lo incomodado – digo, na minha melhor voz de membro
da Abnegação. – Já vou indo.
– Sim, eu conheço você – diz o homem. – Você é filho de Evelyn Eaton,
não é?
Meu corpo enrijece quando ouço o nome dela. Há anos não o ouço,
porque meu pai não o pronuncia e finge nem o reconhecer se alguém o
menciona. Ser conectado a ela outra vez, mesmo que apenas pela
semelhança física, parece estranho, como vestir uma antiga peça de roupa
que não cabe mais.
– Você a conhecia? – Ele devia conhecê-la bem se consegue reconhecê-la
em meu rosto, que é mais pálido do que o dela, e com olhos azuis, não
castanho-escuros. A maioria das pessoas não prestou atenção o suficiente
para perceber todas as características que tínhamos em comum: nossos
dedos longos, nossos narizes aquilinos, nossas sobrancelhas retas e
franzidas.
Ele hesita por um instante.
– Às vezes ela se voluntariava com outros membros da Abnegação.
Distribuindo comida, cobertores e roupas. Ela tinha um rosto marcante.
Além disso, era casada com um líder de conselho. Todos não a conheciam?
Às vezes, sei que as pessoas estão mentindo apenas pela maneira como
sinto as palavras me pressionando, de forma desconfortável e forte, como
uma pessoa da Erudição se sente ao ver um erro gramatical. Não sei como
ele conhecia a minha mãe, mas certamente não era apenas porque ela lhe
entregou uma lata de sopa alguma vez. Mas estou tão ansioso para ouvir
mais a respeito dela que não insisto no assunto.
– Ela morreu, sabia? – digo. – Há anos.
– Não, eu não sabia. – Um dos cantos da boca dele se curva um pouco
para baixo. – Sinto muito.
Sinto-me estranho neste lugar úmido, que cheira a corpos vivos e a
fumaça, em meio a latas vazias que sugerem pobreza e o fracasso em se
encaixar. Mas também há algo atraente aqui, certa liberdade ou uma recusa
de pertencer às categorias arbitrárias que inventamos para nós mesmos.
– Sua Escolha deve ser amanhã, já que você parece tão preocupado –
observa o homem. – Que facção você tirou?
– Não devo contar para as outras pessoas – respondo automaticamente.
– Não sou outra pessoa – diz ele. – Sou ninguém. É isso que significa ser
um sem-facção.
Mesmo assim, não digo nada. A proibição de revelar o resultado do meu
teste de aptidão ou qualquer um dos meus outros segredos é construída
rigidamente no molde que me faz e refaz todos os dias. É impossível mudar
isso agora.
– Ah, um seguidor de regras – comenta ele, como se estivesse
desapontado. – Sua mãe me disse certa vez que ela sentia que a inércia a
havia levado para a Abnegação. Foi o caminho de menor resistência. – Ele
dá de ombros. – Confie em mim quando digo, garoto Eaton, que vale a pena
resistir.
Sinto uma onda de raiva. Ele não deveria falar sobre a minha mãe como
se ela pertencesse a ele e não a mim, e não deveria estar me fazendo
questionar tudo o que lembro a respeito dela só porque ela talvez tenha
servido, ou não, comida para ele algum dia. Ele não deveria estar me
contando nada. Ele não é ninguém, é um sem-facção, um apartado, não é
nada.
– É mesmo? Olha só para onde a resistência levou você. Para uma vida
de latas vazias em edifícios decadentes. Não me parece tão bom assim.
Começo a caminhar em direção à porta pela qual o homem entrou. Sei
que encontrarei uma saída para o beco em algum lugar ao lado do edifício;
não me importa onde, desde que eu consiga ir embora o mais rápido
possível.
Escolho um trajeto, tomando cuidado para não pisar em nenhum
cobertor. Quando chego ao corredor, o homem diz:
– Prefiro comer de uma lata a ser oprimido por uma facção.
Não olho para trás.
+++
Ao chegar a casa, sento-me no degrau de entrada e respiro fundo o ar frio
da primavera por alguns minutos.
Foi a minha mãe quem me ensinou a aproveitar momentos como este,
momentos de liberdade, embora ela não soubesse disso. Eu a via escapar
pela porta da frente depois de escurecer enquanto meu pai dormia, depois
voltar escondida para casa, quando a luz do sol começava a surgir atrás dos
prédios. Ela também aproveitava esses momentos quando estava conosco,
diante da pia, de olhos fechados, tão distante do presente que nem me
ouvia falar com ela.
Mas também aprendi outra coisa observando-a: os momentos livres
sempre precisam acabar.
Levanto-me, limpo pedaços de cimento das minhas calças de cor cinza e
abro a porta. Meu pai está sentado na poltrona da sala de estar, cercado por
uma papelada. Ajeito a postura para não ser repreendido por andar
curvado. Caminho em direção à escada. Talvez ele me deixe ir para o meu
quarto, talvez não preste atenção em mim.
– Conte-me sobre seu teste de aptidão – pede ele, apontando para o sofá.
Atravesso a sala, saltando cuidadosamente uma pilha de papéis sobre o
carpete, e me sento onde ele apontou, bem na ponta do sofá, para poder me
levantar depressa.
– E então? – Ele tira os óculos e olha para mim, esperando uma resposta.
Ouço certa tensão em sua voz, típica de um dia difícil no trabalho. É melhor
eu tomar cuidado. – Qual foi o resultado?
A possibilidade de me recusar a responder nem passa pela minha
cabeça.
– Abnegação.
– Nada mais?
Franzo a testa.
– Não, é claro que não.
– Não olhe para mim assim – diz ele, e minha testa franzida volta ao
normal. – Não aconteceu nada de estranho em seu teste?
Durante o meu teste, eu sabia onde estava. Sabia que, apesar de parecer
que eu me encontrava no refeitório da escola secundária, na verdade
continuava prostrado sobre uma cadeira na sala do teste de aptidão,
conectado a uma máquina por uma série de fios. Aquilo foi estranho. Mas
não quero falar sobre isso agora, quando consigo ver o estresse crescendo
dentro dele, como uma tempestade.
– Não – respondo.
– Não minta para mim – ordena ele, agarrando o meu braço e apertando
os dedos como um torno. Não olho para meu pai.
– Não estou mentindo – digo. – Meu resultado foi Abnegação, como
esperado. A mulher quase nem olhou para mim quando deixei a sala. Eu
juro.
Ele me solta. Meu braço lateja onde ele me agarrou.
– Ótimo – diz ele. – Você certamente precisa pensar um pouco. É melhor
ir para o seu quarto.
– Sim, senhor.
Levanto-me e atravesso a sala outra vez, aliviado.
– Ah! – exclama ele. – Alguns dos meus colegas do conselho virão aqui
hoje, então é melhor você jantar mais cedo.
– Sim, senhor.
+++
Antes do pôr do sol, pego comida dos armários e da geladeira: dois pães e
cenouras cruas, ainda com as folhas, um pedaço de queijo, uma maçã e
restos de frango sem tempero. Tudo tem o mesmo gosto, de poeira e pasta.
Mantenho os olhos na porta para não esbarrar em nenhum colega do meu
pai. Ele não ia gostar se eu ainda estivesse no andar de baixo quando eles
chegassem.
Estou terminando um copo de água quando o primeiro membro do
conselho alcança a porta da frente, então passo correndo pela sala de estar
antes que meu pai chegasse à porta. Ele me espera passar pelo balaústre,
com a mão na maçaneta e as sobrancelhas erguidas na minha direção.
Aponta para o segundo andar, e eu subo os degraus apressadamente
enquanto ele abre a porta.
– Olá, Marcus. – Reconheço a voz de Andrew Prior. É um dos amigos de
trabalho mais próximos do meu pai, o que não significa nada, porque
ninguém conhece meu pai de verdade. Nem eu.
Do alto da escada, olho para Andrew. Ele limpa os sapatos no capacho.
Às vezes, vejo-o com sua família, uma unidade perfeita da Abnegação,
Natalie e Andrew, e o filho e a filha (que não são gêmeos, mas estão no
mesmo ano da escola, dois antes do meu), todos caminhando serenamente
pela calçada, cumprimentando as pessoas por quem passam com um aceno
de cabeça. Natalie organiza todas as ações voluntárias entre os membros da
Abnegação. Minha mãe provavelmente a conhecia, embora raramente
frequentasse eventos sociais da Abnegação, preferindo guardar seus
segredos como guardo os meus: dentro de casa.
Os olhos de Andrew encontram os meus, e eu corro pelo corredor até o
meu quarto, fechando a porta atrás de mim.
Para todos os efeitos, meu quarto é tão esparso e limpo quanto qualquer
outro da Abnegação. Os lençóis e cobertores cinzentos estão bem presos ao
colchão fino, e meus livros escolares foram empilhados ordenadamente, em
uma torre perfeita, em cima da mesa de madeira compensada. Uma
pequena cômoda com várias roupas idênticas fica ao lado de uma estreita
janela, que permite a entrada mínima de luz solar à tarde. Pela janela,
consigo ver a casa ao lado, idêntica à minha, mas quatro metros e meio para
a direita.
Sei como a inércia levou minha mãe à Abnegação, se é que aquele
homem falou a verdade sobre ela. Também consigo ver isso acontecendo
comigo amanhã, quando estiver diante dos recipientes de elementos das
facções, com uma faca nas mãos. Existem quatro facções que não conheço e
nas quais não confio, com práticas que não compreendo, e apenas uma que
é familiar, previsível, compreensível. Escolher a Abnegação pode não me
levar a uma vida de grande felicidade, mas pelo menos vai me dar uma
situação confortável.
Sento-me na beirada da cama. Não, não vai, penso, depois engulo o
pensamento, porque sei de onde ele vem: a parte infantil dentro de mim
que teme o homem reinando sobre a sala de estar. O homem cujos punhos
conheço melhor do que os abraços.
Verifico se a porta está bem fechada e prendo a cadeira sob a maçaneta,
só para ter certeza. Depois, agacho-me ao lado da cama e enfio a mão
debaixo dela, para pegar o baú que guardo ali.
Minha mãe me deu o baú quando eu era criança e disse ao meu pai que
serviria para guardar cobertores e que o tinha encontrado em um beco
qualquer. Mas, ao colocá-lo no meu quarto, ela não o encheu de cobertores.
Ela fechou a porta e posicionou o dedo sobre a boca, pousando o baú na
cama para abri-lo.
Dentro dele havia uma escultura azul. Parecia água se derramando, mas
era de vidro, completamente transparente, polida, perfeita.
– O que isso faz? – perguntei a ela.
– Nada de óbvio – respondeu minha mãe e depois sorriu, mas seu
sorriso foi tenso, como se ela temesse algo. – Mas pode fazer alguma coisa
aqui. – Ela tocou o próprio peito, bem acima do esterno. – Coisas lindas, às
vezes, fazem isso.
Desde então, tenho enchido o baú com objetos que outras pessoas
considerariam inúteis: óculos velhos sem lentes, fragmentos de placas-mãe
descartadas, velas de automóveis, fios desencapados, o gargalo quebrado
de uma garrafa verde, uma navalha enferrujada. Não sei se minha mãe, ou
até mesmo eu, consideraria esses objetos lindos, mas cada um deles teve
sobre mim o mesmo efeito da escultura. Eram coisas secretas, ou valiosas,
talvez simplesmente por serem tão ignoradas.
Em vez de pensar sobre o resultado do meu teste de aptidão, seguro, um
a um, os objetos e os giro nas mãos para memorizar cada detalhe deles.
+++
Acordo assustado ao ouvir os passos de Marcus no corredor do lado de fora
do meu quarto. Estou deitado na cama, com os objetos espalhados ao meu
redor, sobre o colchão. Os passos desaceleram à medida que ele se
aproxima da minha porta, e eu pego as velas de automóvel, as peças de
placa-mãe e os fios, jogo tudo dentro do baú e o tranco, guardando a chave
no bolso. Percebo no último segundo, quando a maçaneta começa a girar,
que a escultura continua fora do baú, então a enfio debaixo do travesseiro e
empurro o baú para debaixo da cama.
Salto até a cadeira e a retiro de debaixo da maçaneta para que meu pai
consiga entrar.
Ao entrar, ele olha para a cadeira na minha mão, desconfiado.
– O que isso estava fazendo aí? – pergunta ele. – Você está tentando me
impedir de entrar?
– Não, senhor.
– É a segunda vez que você mente para mim hoje – diz Marcus. – Não
criei o meu filho para ser um mentiroso.
– Eu... – Não consigo pensar em absolutamente nada para dizer; então
apenas me calo e ponho a cadeira diante da mesa, onde é o seu lugar, bem
atrás da pilha perfeita de livros escolares.
– O que você estava fazendo aqui dentro que não queria que eu visse?
Agarro o braço da cadeira com força e encaro os meus livros.
– Nada – respondo num sussurro.
– É a terceira mentira – diz ele em um tom baixo, mas duro como pedra.
Ele se aproxima de mim, e eu me afasto instintivamente. Porém, em vez de
tentar me segurar, ele se abaixa e puxa o baú de debaixo da cama, depois
tenta abrir a tampa. Ela não se move.
O medo rasga a minha barriga como uma navalha. Belisco a bainha da
camisa, mas não consigo sentir as pontas dos meus dedos.
– Sua mãe disse que isto servia para guardar cobertores – diz ele. – Que
você sentia frio à noite. Mas eu sempre quis saber... se ainda há cobertores
aqui dentro, por que você o mantém trancado?
Ele estende a mão com a palma para cima e ergue as sobrancelhas ao
olhar para mim. Sei o que ele quer: a chave. E preciso entregá-la, porque ele
sabe quando estou mentindo; ele sabe tudo sobre mim. Agora, não consigo
sentir as palmas das minhas mãos, e a respiração está começando: a
respiração acelerada com que sempre fico quando sei que ele está prestes a
explodir.
Fecho os olhos enquanto ele abre o baú.
– O que é isto? – Ele move as mãos descuidadamente sobre os objetos
valiosos, espalhando-os para todos os lados. Ele os retira do baú, um a um,
e os joga na minha direção. – Para que você precisa disto, ou disto...?
Estremeço, objeto após objeto, e não tenho resposta. Não preciso deles.
Não preciso de nenhum deles.
– Isto fede a um capricho! – grita ele, depois empurra o baú da beirada
da cama, fazendo o conteúdo se espalhar pelo chão. – Isto envenena a nossa
casa com egoísmo!
Também não consigo sentir meu rosto.
As mãos dele atingem meu peito. Tropeço para trás e bato na cômoda.
Depois, ele levanta a mão, preparando-se para me bater, e eu digo, com a
garganta apertada de medo:
– A Cerimônia de Escolha, pai!
Ele para com a mão erguida, e eu tremo de medo, me encolhendo contra
a cômoda com a visão embaçada demais para enxergar. Ele geralmente
tenta não deixar marcas no meu rosto, em especial antes de dias como o de
amanhã, quando tantas pessoas voltarão seus olhos para mim, observandome
fazer a escolha.
Ele baixa a mão, e, por um instante, penso que a violência acabou, que a
ira foi contida. Mas, então, ele diz:
– Está bem. Espere aqui.
Eu me apoio na cômoda. Sei muito bem que ele não vai simplesmente
embora, não vai pensar no que aconteceu e depois voltar para pedir
desculpas. Ele nunca faz isso.
Ele voltará com um cinto, e as listras que ele entalha nas minhas costas
serão facilmente escondidas por uma camisa e uma expressão obediente da
Abnegação.
Eu me viro, com o tremor tomando conta do meu corpo. Agarro-me ao
canto da cômoda e espero.
+++
À noite, durmo de bruços, com a dor mordendo cada um dos meus
pensamentos e todos os meus bens quebrados no chão ao redor. Depois de
me espancar até eu ser obrigado a enfiar o punho na boca para abafar os
gritos, ele pisoteou cada um dos objetos até quebrá-los ou amassá-los,
tornando-os irreconhecíveis, depois lançou o baú contra a parede, soltando
a tampa das dobradiças.
O pensamento surge de repente: Se você escolher a Abnegação, nunca
conseguirá escapar dele.
Enfio a cara no travesseiro.
Mas não sou forte o bastante para resistir à inércia da Abnegação, ao
medo que me impulsiona pelo caminho que meu pai traçou para mim.
+++
Na manhã seguinte tomo um banho frio, não para conservar recursos, como
manda a Abnegação, mas porque isso diminui a dor nas minhas costas.
Visto as roupas largas e simples da Abnegação bem devagar e paro diante
do espelho do corredor para cortar o cabelo.
– Deixe-me ajudar – diz meu pai do final do corredor. – Afinal, é o seu
Dia de Escolha.
Pouso a máquina de raspar cabelo sobre o canto formado pelo painel
deslizante e tento ajeitar a postura. Ele para atrás de mim, e desvio os olhos
quando a máquina começa a zunir. Há apenas um nivelador para a lâmina,
apenas um comprimento de cabelo aceitável para os homens da Abnegação.
Contraio o rosto enquanto os dedos dele estabilizam a minha cabeça e
espero que ele não perceba, não veja como um simples toque seu já me
aterroriza.
– Você sabe o que esperar – diz ele.
Ele cobre o topo da minha orelha com a mão enquanto arrasta a
máquina pela lateral da minha cabeça. Hoje, tenta proteger a minha orelha
de ser cortada pela máquina, mas ontem estava me surrando com um cinto.
O pensamento parece veneno atravessando o meu corpo. É quase
engraçado. Tenho vontade de rir.
– Você ficará parado no seu lugar; quando seu nome for chamado, irá
para a frente e pegará sua faca. Depois, você se cortará e pingará uma gota
de sangue no recipiente certo.
Nossos olhos se encontram no espelho, e sua boca quase forma um
sorriso. Ele toca o meu ombro, e percebo que agora temos quase a mesma
altura e quase o mesmo tamanho, embora eu ainda me sinta bem menor.
Depois, ele diz gentilmente:
– A dor do corte passa rápido. E, então, sua escolha terá sido feita, e tudo
estará acabado.
Será que ele se lembra do que aconteceu ontem, ou será que já guardou
o evento em um compartimento separado da mente, mantendo sua metade
monstro separada de sua metade pai? Eu, no entanto, não tenho esses
compartimentos e consigo ver todas as suas identidades sobrepostas, como
camadas: o monstro, o pai, o homem, o líder de conselho e o viúvo.
De repente, meu coração dispara, meu rosto esquenta e quase não
consigo me segurar.
– Não se preocupe com a dor que vou sentir. Tenho muita experiência.
Durante um segundo, seus olhos no espelho são como adagas, e a raiva
que me fortalece se esvai, substituída pelo medo habitual. Mas tudo o que
ele faz é desligar a máquina, pousá-la sobre o canto do painel e descer a
escada, deixando para mim a tarefa de varrer o cabelo cortado do chão,
limpar os fios dos meus ombros e pescoço, e guardar a máquina na gaveta
do banheiro.
Depois, volto para o meu quarto e encaro os objetos quebrados no chão.
Cuidadosamente, reúno-os em uma pilha e os jogo na lixeira ao lado da
minha mesa, peça por peça.
Fazendo uma careta de dor, eu me levanto. Minhas pernas estão
trêmulas.
Neste momento, encarando a vida vazia que construí para mim mesmo
aqui e os restos destruídos dos meus poucos pertences, eu penso: preciso ir
embora.
É um pensamento potente. Sinto a sua força dentro de mim, como um
sino tocando, então penso novamente. Preciso ir embora.
Caminho até a cama e enfio a mão sob o travesseiro, onde a escultura da
minha mãe continua segura, azul e brilhante com a luz da manhã. Coloco-a
sobre a mesa, ao lado da pilha de livros, e deixo o quarto, fechando a porta
ao sair.
No andar de baixo, estou nervoso demais para comer, mas enfio uma
fatia de torrada na boca mesmo assim, para que meu pai não me faça
perguntas. Eu não deveria me preocupar. Agora, ele está fingindo que não
existo, fingindo que eu não faço uma careta de dor sempre que preciso me
abaixar para pegar algo.
Preciso ir embora. Isso virou um cântico, um mantra, a única coisa à qual
ainda consigo me agarrar.
Ele acaba de ler as notícias que a Erudição publica todas as manhãs, eu
termino de lavar a louça que sujei, e deixamos a casa juntos sem trocarmos
uma única palavra. Caminhamos pela calçada, ele cumprimenta nossos
vizinhos com um sorriso, e tudo está sempre em perfeita ordem para
Marcus Eaton, exceto pelo seu filho. Exceto por mim; eu não estou em
ordem, mas em constante caos.
Mas hoje isso é bom.
Entramos no ônibus e paramos no corredor para permitir que as
pessoas se sentem ao nosso redor, em um retrato perfeito da deferência da
Abnegação. Assisto aos outros passageiros embarcando, garotos e garotas
falastrões da Franqueza, membros da Erudição, com seus semblantes
estudiosos. Vejo os outros membros da Abnegação se levantando para
ceder o assento. Hoje, todos estão indo para o mesmo lugar: o Eixo, um
pilar preto a distância, com suas duas pontas apunhalando o céu.
Quando chegamos, meu pai apoia a mão no meu ombro conforme
caminhamos até a entrada, lançando choques de dor pelo meu corpo.
Preciso ir embora.
É um pensamento desesperado, e a dor só o estimula mais a cada passo
que dou enquanto subo as escadas até o andar da Cerimônia de Escolha.
Tenho dificuldade em respirar, mas não devido às minhas pernas que
ardem; é por causa do meu coração fraco, que se fortalece a cada segundo.
Ao meu lado, Marcus enxuga gotas de suor da testa, e todos os outros
membros da Abnegação fecham suas bocas para não ofegarem e parecerem
estar reclamando.
Levanto os olhos e vejo os degraus diante de mim. Sou incendiado por
esse pensamento, essa necessidade, essa chance de escapar.
Chegamos ao andar certo, e todos param para recobrar o fôlego antes de
entrar. A sala é mal-iluminada, as janelas estão fechadas, as cadeiras
ordenadas ao redor de um círculo de recipientes de vidro, água, pedras,
carvão e terra. Encontro o meu lugar na fileira, entre uma garota da
Abnegação e um garoto da Amizade. Marcus para na minha frente.
– Você sabe o que deve fazer – diz ele, e parece estar falando mais
consigo mesmo do que comigo. – Você sabe qual é a escolha certa. Eu sei
que você sabe.
Apenas encaro um ponto abaixo dos seus olhos.
– Nos vemos em breve – diz ele.
Meu pai caminha em direção ao setor da Abnegação e se senta na
primeira fileira com alguns dos outros líderes do conselho. As pessoas aos
poucos enchem o salão, os que vão fazer a escolha ficam de pé em um
canto, e os que estão assistindo à cerimônia se sentam em cadeiras no
centro. As portas são fechadas, e há um momento de silêncio enquanto o
representante do conselho da Audácia caminha até o pódio. Seu nome é
Max. Ele agarra o canto do pódio, e consigo ver, até mesmo daqui, que seus
punhos estão feridos.
Será que eles aprendem a lutar na Audácia? Certamente, sim.
– Sejam bem-vindos à Cerimônia de Escolha – diz Max, e sua voz grave
preenche facilmente o salão. Ele não precisa do microfone; sua voz é alta e
potente o bastante para penetrar meu crânio e envolver meu cérebro. –
Hoje, vocês vão escolher as suas facções. Até este momento, vocês seguiram
os caminhos dos seus pais, as regras dos seus pais. Hoje, encontrarão seus
próprios caminhos, criarão suas próprias regras.
Quase consigo ver meu pai contrair os lábios em desdém ao ouvir um
discurso tão típico da Audácia. Conheço os hábitos dele tão bem que quase
o imito, embora não compartilhe o sentimento. Não tenho nenhuma
opinião em relação à Audácia.
– Há muito tempo, nossos ancestrais perceberam que cada um de nós,
cada indivíduo, era responsável pelo mal que existe no mundo. Mas eles
não concordaram sobre o que exatamente era esse mal – diz Max. – Alguns
diziam que era a duplicidade...
Penso nas mentiras que já contei, ano após ano, sobre determinada
ferida ou corte, e nas minhas omissões quando escondi meus segredos de
Marcus.
– Alguns diziam que era a ignorância, outros, a agressividade...
Penso na paz dos pomares da Amizade e na liberdade que encontraria
lá, longe da violência e da crueldade.
– Alguns diziam que a causa era o egoísmo.
Isto é para o seu próprio bem, foi o que Marcus disse antes do primeiro
golpe. Como se me bater fosse um ato de sacrifício. Como se doesse nele
também. Bem, ele não estava mancando pela cozinha hoje de manhã.
– E o último grupo disse que a culpa era da covardia.
Alguns membros da Audácia gritam e assobiam, e o restante dos
integrantes da facção cai na gargalhada. Penso no medo que me engoliu
ontem, até eu não conseguir sentir mais nada, até eu não conseguir mais
respirar. Penso nos anos em que fiquei esmagado no chão, sob os pés do
meu pai.
– Foi assim que criamos as nossas facções: Franqueza, Erudição,
Amizade, Abnegação e Audácia. – Max abre um sorriso. – Nelas,
encontramos administradores, professores, conselheiros, líderes e
protetores. Nelas, encontramos nosso senso de pertencimento, nosso senso
de comunidade, nossas próprias vidas. – Ele limpa a garganta. – Mas chega
disso. Vamos direto ao ponto. Venham para a frente e peguem as suas facas,
depois façam a escolha. O primeiro é Zellner, Gregory.
Faz sentido que a dor me siga da minha vida antiga até a minha vida
nova, através da faca cortando a palma da minha mão. Apesar disso, mesmo
hoje de manhã, eu não sabia qual facção escolheria como refúgio. Gregory
Zellner posiciona sua mão sangrenta sobre o recipiente com a terra,
escolhendo a Amizade.
A Amizade parece a escolha óbvia para um refúgio, com sua vida
pacífica, seus pomares cheirosos e sua comunidade sorridente. Lá eu
encontraria o tipo de aceitação que busquei a vida inteira, e talvez, com o
tempo, a facção pudesse me ensinar a me sentir mais seguro e confortável a
respeito de quem sou.
Mas, ao olhar para as pessoas sentadas naquela seção, com suas roupas
vermelhas e amarelas, vejo apenas pessoas inteiras e curadas, capazes de
incentivar umas às outras, de apoiar umas às outras. Eles são perfeitos
demais, bondosos demais, para que alguém como eu seja levado aos seus
braços por raiva e medo.
A cerimônia está andando rápido demais.
– Rogers, Helena.
Ela escolhe a Franqueza.
Sei o que acontece durante a iniciação da Franqueza. Ouvi alguém
cochichar sobre isso na escola uma vez. Lá, eu seria obrigado a expor todos
os meus segredos, desencavá-los com as minhas próprias unhas. Eu teria
que me esfolar vivo para me juntar à Franqueza. Não, não posso fazer isso.
– Lovelace, Frederick.
Frederick Lovelace, todo vestido de azul, corta a palma da sua mão e
pinga o seu sangue na água da Erudição, deixando-a de um tom rosado.
Consigo aprender rápido o suficiente para a Erudição, mas também me
conheço bem o bastante para compreender que sou volátil e emocional
demais para um lugar como aquele. A facção me sufocaria, e o que quero é
ser livre, e não ser enfiado em outra prisão.
Não demora muito para o nome da menina da Abnegação ao meu lado
ser chamado.
– Erasmus, Anne.
Anne, outra que nunca encontrou mais do que algumas poucas palavras
para dirigir a mim, tropeça para a frente e desce o corredor até o pódio de
Max. Ela aceita a faca com as mãos trêmulas, corta a palma de uma delas e a
estende sobre o recipiente da Abnegação. Para ela, é fácil. Ela não tem
motivo para fugir, apenas uma comunidade receptiva e bondosa para a qual
voltar. Além disso, há anos ninguém da Abnegação se transfere. É a facção
mais leal, segundo as estatísticas da Cerimônia de Escolha.
– Eaton, Tobias.
Não estou nervoso ao descer o corredor até os recipientes, embora
ainda não tenha feito a minha escolha. Max me entrega a faca, e envolvo o
seu cabo com os meus dedos. O cabo é liso e frio, e a lâmina está limpa. Uma
faca nova para cada pessoa, e uma nova escolha.
Ao caminhar até o centro da sala, até ficar diante dos recipientes, passo
por Tori, a mulher que administrou o meu teste de aptidão. É você quem
precisará conviver com a sua escolha, disse ela. O cabelo dela está preso, e
consigo ver uma tatuagem em sua clavícula, quase no pescoço. Seus olhos
encontram os meus com uma intensidade peculiar, e eu a encaro de volta,
impávido, ao me posicionar entre os recipientes.
Com qual opção conseguirei viver? Não com a Erudição ou a Franqueza.
Nem com a Abnegação, o lugar de onde estou tentando escapar. Nem
mesmo com a Amizade, para a qual estou danificado demais.
Na verdade, quero que a minha escolha seja uma faca atravessando o
coração do meu pai, apunhalando-o, causando o máximo de dor, vergonha e
decepção possível.
Apenas uma escolha tem esse poder.
Olho para ele, vejo-o assentir com a cabeça e abro um corte fundo na
palma da minha mão, tão fundo que meus olhos lacrimejam de dor. Afasto
as lágrimas, piscando, e fecho a mão em um punho, para permitir que o
sangue se acumule. Os olhos dele são iguais aos meus, de um azul tão
profundo que, nesta luz, parecem quase pretos, como fossos em seu crânio.
Minhas costas latejam e doem, a camisa de colarinho arranha a minha pele
ferida, a pele que ele marcou com o cinto.
Abro a mão sobre os carvões. Parece que eles queimam o meu estômago,
enchendo-me até a borda com fogo e fumaça.
Eu estou livre.
+++
Não ouço a comemoração dos membros da Audácia; tudo o que ouço é um
zumbido.
Minha facção é como uma criatura de muitos braços estendendo-se na
minha direção. Caminho até eles e nem me dou o trabalho de olhar para
trás para ver a expressão do meu pai. Recebo tapinhas nos braços,
parabenizando-me pela escolha, e sigo até a parte de trás do grupo, com o
sangue escorrendo pelos dedos.
Paro entre os outros iniciandos, ao lado de um garoto da Erudição de
cabelo preto, que com um único olhar me avalia e logo me ignora. Não devo
parecer grande coisa, vestindo o cinza da Abnegação, alto e magricelo,
depois do estirão de crescimento do último ano. O corte na minha mão está
quase jorrando, e o sangue pinga no chão e escorre pelo meu pulso. Enfiei a
faca fundo demais.
Enquanto as últimas pessoas escolhem, seguro a bainha da minha
camisa larga da Abnegação entre os dedos e a rasgo. Arranco uma tira de
tecido da frente da camisa e envolvo-a na minha mão para estancar o
sangramento. Não precisarei mais destas roupas.
Os membros da Audácia sentados à nossa frente se levantam assim que
a última pessoa escolhe e correm em direção às portas, carregando-me
junto. Viro-me logo antes de atravessar a porta, sem conseguir me conter, e
vejo meu pai, ainda sentado na primeira fileira, com alguns outros
membros da Abnegação ao redor. Ele parece atordoado.
Abro um pequeno sorriso. Eu consegui. Consegui botar aquela expressão
na cara dele. Não sou a criança perfeita da Abnegação, fadada a ser engolida
por inteiro pelo sistema e dissolvida em meio à obscuridade. Não, sou a
primeira pessoa a se transferir da Abnegação para a Audácia em mais de
uma década.
Viro e começo a correr para alcançar os outros, porque não quero ficar
para trás. Antes de deixar o salão, desabotoo a camisa de manga comprida
rasgada e deixo-a cair no chão. A camiseta cinza que uso por baixo também
é grande demais para mim, mas é mais escura e se mistura melhor com as
roupas pretas da Audácia.
Eles descem as escadas de maneira barulhenta, abrindo as portas aos
encontrões, rindo e gritando. Sinto as minhas costas, ombros, pulmões e
pernas queimando e, de repente, já não tenho mais certeza de ter feito a
escolha certa, de ter escolhido as pessoas certas a quem me juntar. Eles são
tão barulhentos e selvagens. Será que conseguirei mesmo criar um lugar
para mim entre eles? Não sei.
Acho que não tenho escolha.
Abro caminho, procurando os outros iniciandos, mas eles parecem ter
desaparecido. Vou até a lateral do grupo, tentando ver para onde estamos
indo, e avisto os trilhos de trem suspensos sobre a rua à nossa frente, em
uma grade entrelaçada de madeira e metal. Os membros da Audácia sobem
a escada e se espalham pela plataforma. Ao pé da escada há tanta gente que
não consigo passar, mas sei que se eu não subir a escada logo posso perder
o trem; então decido abrir caminho à força. Preciso cerrar os dentes para
me segurar e não pedir desculpas enquanto acotovelo pessoas para que
saiam da minha frente, e a multidão me empurra escada acima.
– Você até que corre bem – diz Tori ao se aproximar de mim na
plataforma. – Para um garoto da Abnegação, pelo menos.
– Obrigado.
– Você sabe o que acontece agora, não sabe? – Ela vira e aponta para a
luz distante, na frente do trem que se aproxima. – O trem não vai parar. Ele
vai apenas desacelerar um pouco. E, se você não conseguir embarcar, já era
para você. Você se tornará um sem-facção. É bem fácil ser expulso.
Assinto com a cabeça. O fato de a prova de iniciação ter começado no
segundo em que deixamos a Cerimônia de Escolha não me surpreende. E a
Audácia esperar que eu prove do que sou capaz também não me
surpreende. Assisto ao trem se aproximando. Já consigo ouvi-lo apitar
sobre os trilhos.
Ela sorri para mim.
– Você vai se sair muito bem aqui, não é mesmo?
– Por que diz isso?
Ela dá de ombros.
– Você me parece alguém que está disposto a lutar, só isso.
O trem se aproxima ruidosamente de nós, e os membros da Audácia
começam a saltar para dentro. Tori corre em direção à beirada da
plataforma, e eu a sigo, imitando a sua postura e os seus movimentos
enquanto ela se prepara para saltar. Ela agarra a barra na beirada da porta
e se lança para dentro, então faço o mesmo, a princípio com dificuldade,
mas depois consigo içar o corpo e entrar.
Mas não estou preparado para a curva do trem e tropeço, batendo com o
rosto na parede de metal. Seguro o meu nariz dolorido.
– Quanta elegância! – observa um garoto da Audácia dentro do trem. Ele
é mais jovem do que Tori, tem a pele escura e um sorriso simpático.
– Requinte é coisa dos metidos da Erudição – comenta Tori. – Ele
conseguiu entrar no trem, Amah, e é isso o que importa.
– Mas ele deveria estar no outro vagão. Com os outros iniciandos – diz
Amah. Ele me encara, porém não da mesma maneira que o garoto
transferido da Erudição fez há alguns minutos. Parece mais curioso do que
qualquer outra coisa, como se eu fosse algo estranho que ele precisa
examinar com cuidado para entender. – Se ele é seu amigo, acho que não
tem problema. Qual é o seu nome, Careta?
Meu nome está na ponta da língua assim que ele faz a pergunta, e estou
prestes a responder como sempre fiz, dizendo que sou Tobias Eaton. Isso
deveria ser natural, mas, naquele momento, não consigo dizer meu nome
em voz alta, não aqui, entre as pessoas que esperava que fossem meus
novos amigos, minha nova família. Não posso, não serei mais o filho de
Marcus Eaton.
– Você pode me chamar de ‘Careta’. Não estou nem aí – digo,
experimentando o tipo de gracejo ácido da Audácia, que até hoje só ouvi
nos corredores e nas salas de aula da escola. O vento invade o vagão à
medida que o trem acelera, e o som é alto, rugindo nos meus ouvidos.
Tori olha para mim de forma estranha, e, por um segundo, temo que ela
revele o meu nome a Amah. Com certeza ela ainda se lembra dele, por conta
do teste de aptidão. Mas ela apenas assente de leve, e, aliviado, volto-me
para a porta aberta, ainda segurando a barra lateral.
Nunca me ocorreu que eu poderia um dia me recusar a revelar a alguém
meu nome, ou que eu poderia fornecer um nome falso, construir uma
identidade nova para mim mesmo. Aqui, sou livre. Livre para responder
rispidamente às pessoas, para me recusar a fazer algo que elas pedirem e
até mesmo mentir.
Vejo a rua entre as vigas de madeira que sustentam os trilhos do trem,
apenas um andar abaixo de nós. Mais adiante, os velhos trilhos dão lugar a
trilhos mais novos, e a plataforma fica mais alta, passando ao lado dos
telhados dos prédios. A subida é gradual, eu nem a perceberia se não
estivesse encarando o chão enquanto nos afastamos cada vez mais dele e
nos aproximamos do céu.
O medo enfraquece minhas pernas, então me afasto da porta e me
agacho junto a uma parede, à espera do nosso destino.
+++
Ainda estou na mesma posição, agachado junto à parede, com a cabeça
apoiada nas mãos, quando Amah me cutuca com o pé.
– Levante-se, Careta – diz ele, mas não com rispidez. – Está quase na
hora de saltar.
– Saltar? – pergunto.
– É. – Ele abre um sorriso debochado. – Este trem não para pra ninguém.
Levanto-me com dificuldade. O pano que enrolei na minha mão está
encharcado e vermelho. Tori vem logo atrás de mim e me empurra em
direção à porta.
– Deixem que o iniciando salte primeiro.
– O que você está fazendo? – pergunto, olhando-a feio.
– Estou lhe fazendo um favor! – responde ela, empurrando-me outra vez
em direção à porta.
Os outros membros da Audácia abrem caminho para mim, todos
sorrindo como se eu fosse uma presa. Arrasto os pés até a beirada,
agarrando a barra com tanta força que meus dedos começam a ficar
dormentes. Vejo o local para onde devo saltar. Mais adiante, os trilhos
ficam bem próximos do telhado de um prédio antes de fazerem uma curva.
Daqui o vão parece pequeno, mas, à medida que o trem se aproxima do
telhado, ele fica cada vez mais largo, e a minha morte iminente parece cada
vez mais provável.
Todo o meu corpo treme enquanto os membros da Audácia nos vagões à
nossa frente começam a saltar. Nenhum deles erra o salto, mas isso não
significa que não serei o primeiro. Solto os dedos da barra, encaro o telhado
e dou o máximo de impulso que consigo.
O impacto atravessa o meu corpo, e desabo para a frente, com as mãos e
os joelhos no chão, e os cascalhos do telhado perfuram a ferida na palma da
minha mão. Olho para meus dedos. É como se o tempo avançasse, e meu
salto simplesmente tivesse desaparecido de minha visão e da memória.
– Droga – diz alguém atrás de mim. – Eu esperava que a gente pudesse
varrer da calçada uma panqueca de Careta mais tarde.
Encaro o chão e me sento sobre os calcanhares. O telhado está
inclinando e balançando sob mim. Não sabia que era possível ficar tonto de
medo.
Mas sei que, pelo menos, acabo de passar em dois testes da iniciação:
embarquei num trem em movimento e consegui saltar para o telhado. A
questão agora é: como será que o pessoal da Audácia desce do telhado?
Pouco depois, Amah sobe na mureta, e eu tenho a minha resposta: eles
vão nos obrigar a saltar.
Fecho os olhos e finjo que não estou ali, ajoelhado sobre estes cascalhos,
com estas pessoas loucas e tatuadas ao redor de mim. Vim aqui para
escapar, mas isto não é uma fuga, apenas uma forma diferente de tortura, e
já é tarde demais para me livrar disto. Minha única opção, portanto, é
sobreviver.
– Sejam bem-vindos à Audácia! – grita Amah. – Aqui, suas únicas opções
são encarar os seus medos e tentar não morrer no processo, ou ir embora
como covardes. Como era de se esperar, este ano tivemos o menor número
de transferidos de facção.
Os membros da Audácia ao redor de Amah erguem os punhos e gritam,
encarando o fato de que ninguém quer se juntar a eles como motivo de
orgulho.
– A única maneira de chegar ao complexo da Audácia por este telhado é
saltando da mureta – explica Amah, abrindo os braços para indicar o
espaço vazio à sua volta. Ele inclina o corpo para trás e balança os braços,
como se estivesse prestes a cair, mas recobra o equilíbrio e abre um
sorriso. Respiro fundo pelo nariz e prendo o ar.
– Como sempre, ofereço para os nossos iniciandos a oportunidade de ir
primeiro, sejam eles nascidos na Audácia ou não. – Ele desce da mureta e
gesticula na direção dela em seguida, com as sobrancelhas erguidas.
Os jovens da Audácia perto da mureta se entreolham. Avisto, mais
afastados, o garoto da Erudição que vi antes, uma garota da Amizade, dois
garotos e uma garota da Franqueza. Somos apenas seis.
Um dos iniciandos da Audácia dá um passo à frente, um rapaz de pele
escura que gesticula pedindo a torcida dos amigos.
– Vai, Zeke! – grita uma das garotas.
Zeke pula sobre a mureta, mas calcula mal o movimento e se
desequilibra, caindo para a frente imediatamente. Ele grita algo
ininteligível e desaparece. A menina da Franqueza quase arqueja, cobrindo
a boca com a mão, mas os amigos da Audácia de Zeke caem na gargalhada.
Acho que não foi o momento dramático e heroico que ele esperava.
Sorrindo, Amah gesticula outra vez para a mureta. Os nascidos na
Audácia formam uma fila atrás dela, assim como o garoto da Erudição e a
garota da Amizade. Sei que tenho que me juntar a eles, tenho que saltar,
independentemente de como me sinta. Aproximo-me da fila, rígido, como
se as minhas juntas fossem parafusos enferrujados. Amah olha para o
relógio e passa a indicar o momento em que cada pessoa deve saltar, com
intervalos de trinta segundos entre si.
A fila está encolhendo, se dissolvendo.
De repente, a fila termina, e sou o único que resta. Subo na mureta e
espero a indicação de Amah para saltar. O sol está se pondo atrás dos
prédios distantes, cuja silhueta denteada não consigo reconhecer deste
ângulo. A luz brilha, dourada, perto do horizonte, e o vento sopra, subindo
pela lateral do prédio e balançando as roupas no meu corpo.
– Pode ir – diz Amah.
Fecho os olhos e fico paralisado; nem consigo me impulsionar para fora
do telhado. Tudo o que consigo fazer é inclinar o corpo para a frente e cair.
Meu estômago desaba, e meus membros vasculham o ar, tentando se
agarrar a alguma coisa, mas não há nada, apenas a queda, o ar, a busca
desesperada pelo chão.
De repente, caio em uma rede.
Ela se enrosca ao redor do meu corpo, envolvendo-me em fios fortes.
Mãos se estendem na beirada. Engancho os dedos na rede e me puxo na
direção delas. Caio em pé sobre uma plataforma de madeira, e um homem
com pele marrom-escura e punhos feridos sorri para mim. Max.
– O Careta! – Ele dá um tapa nas minhas costas, fazendo-me contrair o
rosto em uma expressão de dor. – É bom ver que você chegou até aqui.
Junte-se aos outros iniciandos. Amah deve descer em breve.
Atrás dele há um túnel escuro com paredes de pedra. O complexo da
Audácia é subterrâneo. Pensei que ele ficaria pendurado no topo de um
edifício alto por uma série de cordas frágeis, o que seria a concretização
dos meus piores pesadelos.
Tento descer os degraus e me juntar aos outros iniciandos. Minhas
pernas parecem ter voltado a funcionar. A garota da Amizade sorri para
mim.
– Aquilo foi surpreendentemente divertido – comenta ela. – Meu nome é
Mia. Você está bem?
– Parece que ele está tentando não vomitar – diz um dos rapazes da
Franqueza.
– Bota logo pra fora, cara – diz o outro garoto da Franqueza. –
Adoraríamos um espetáculo.
Minha resposta irritada parece sair do nada:
– Cala a boca.
Para a minha surpresa, é exatamente isso que eles fazem. Acho que não
estão acostumados a ouvir um “cala a boca” de alguém da Abnegação.
Alguns segundos depois, vejo Amah rolar para fora da rede. Ele desce a
escada com um aspecto selvagem e amarrotado, como se estivesse pronto
para a próxima acrobacia insana. Depois pede a todos os iniciandos que se
aproximem, e nos reunimos na entrada do grande túnel, em semicírculo.
Amah junta as mãos em frente ao corpo.
– Meu nome é Amah – apresenta-se. – Sou seu instrutor de iniciação. Eu
cresci aqui e, há três anos, passei na iniciação com mérito, o que significa
que poderei ser o responsável pelos recém-chegados pelo tempo que
quiser. Sorte de vocês.
“Os iniciandos nascidos na Audácia e os transferidos realizam a maior
parte do treinamento físico separados, para que os nascidos na Audácia não
quebrem os transferidos ao meio logo de cara... – Do outro lado do
semicírculo, os iniciandos nascidos na Audácia sorriem ao ouvir isso. – Mas,
este ano, tentaremos algo diferente. Os líderes da Audácia e eu queremos
saber se conhecer os seus medos antes do início do treinamento poderá
prepará-los melhor para o restante da iniciação. Portanto, antes mesmo de
permitir que vocês entrem no refeitório e jantem, vamos participar de uma
sessão de autodescoberta. Sigam-me.”
– E se eu não quiser me autodescobrir? – pergunta Zeke.
Basta um olhar de Amah para fazer Zeke se misturar novamente ao
grupo de iniciandos nascidos na Audácia. Amah é diferente de qualquer
pessoa que já conheci. Pode ser simpático em uma hora e rígido na outra, e
às vezes é as duas coisas ao mesmo tempo.
Ele nos guia pelo túnel até chegarmos a uma porta construída na parede,
que ele abre com o ombro. Nós o seguimos para dentro de uma sala úmida
com uma enorme janela na parede do fundo. Sobre nossas cabeças, as luzes
fluorescentes tremeluzem e piscam, e Amah começa a mexer em uma
máquina que se parece bastante com a usada no meu teste de aptidão. Ouço
o som de algo pingando. Há uma goteira no teto que forma uma poça no
canto da sala.
Outra sala enorme e vazia é visível do outro lado da janela. Há câmeras
em todos os cantos. Será que há câmeras por todo o complexo da Audácia?
– Esta é a sala da paisagem do medo – anuncia Amah, sem tirar os olhos
da máquina. – Uma paisagem do medo é uma simulação na qual vocês
confrontarão os seus maiores temores.
Em uma mesa ao lado da máquina há uma fileira de seringas. Sob a luz
tremeluzente elas parecem sinistras, como se pudessem ser instrumentos
de tortura, facas, lâminas e atiçadores em brasa.
– Como isso é possível? – indaga o garoto da Erudição. – Vocês não
sabem os nossos maiores medos.
– Eric, certo? – pergunta Amah. – Você tem razão, eu não sei quais são os
seus maiores medos, mas o soro que injetarei em você estimulará as partes
do seu cérebro que processam o medo, e você mesmo criará os obstáculos
da simulação, de certa forma. Nessa simulação, ao contrário do teste de
aptidão, você estará ciente de que o que verá não é real. Enquanto isso, eu
estarei nesta sala, controlando o procedimento, e posso fazer o programa
embutido no soro de simulação prosseguir para o próximo obstáculo, uma
vez que seu batimento cardíaco atinja determinada frequência, ou seja,
uma vez que você tenha se acalmado ou enfrentado seu medo de maneira
significativa. Quando seus medos acabarem, o programa se encerrará e
você ‘acordará’ naquela sala novamente com um conhecimento maior
deles.
Ele pega umas das seringas e pede que Eric se aproxime.
– Permita que eu satisfaça a sua curiosidade da Erudição – diz ele. –
Você vai ser o primeiro.
– Mas...
– Mas – diz Amah suavemente – sou o seu instrutor de iniciação, e é
melhor você fazer o que mando.
Eric fica parado por um instante, depois tira o casaco azul, dobra-o ao
meio e o pousa sobre o encosto de uma cadeira. Seus movimentos são
lentos e calculados, com a intenção, imagino, de irritar Amah o máximo
possível. Eric se aproxima de Amah, que crava a seringa quase com
selvageria na lateral do seu pescoço. Em seguida, ele guia Eric até a sala ao
lado.
Quando Eric já está posicionado no meio da outra sala, atrás do vidro,
Amah se conecta à máquina com eletrodos e aperta algo no monitor do
computador atrás dela para iniciar o programa.
Eric está parado com as mãos abaixadas. Ele nos olha através da janela
e, um instante depois, apesar de não ter se movido, parece que está
olhando para outra coisa, como se a simulação já tivesse começado. Mas ele
não grita nem se debate ou chora, como eu esperaria que alguém fizesse ao
encarar seus maiores medos. Seu batimento cardíaco, registrado pelo
monitor diante de Amah, não para de subir, como um pássaro alçando voo.
Ele está com medo. Está com medo, mas não se move.
– O que está acontecendo? – pergunta Mia para mim. – O soro está
funcionando?
Eu faço que sim com a cabeça.
Vejo Eric encher os pulmões de ar e exalar pelo nariz. Seu corpo treme e
estremece, como se o chão vibrasse sob seus pés, mas sua respiração é
lenta e regular, e seus músculos se contraem e relaxam em intervalos de
alguns segundos, como se ele os estivesse tensionando acidentalmente,
para depois corrigir seu erro. Olho para a sua frequência cardíaca no
monitor diante de Amah conforme ela desacelera cada vez mais, até que
Amah toca a tela, forçando o programa a seguir em frente. Isso se repete
com cada novo medo. Conto os medos que passam em silêncio, dez, onze,
doze. Então Amah toca a tela pela última vez, e Eric relaxa o corpo. Ele pisca
devagar, depois abre um sorriso debochado ao olhar para a janela.
Percebo que os iniciandos nascidos na Audácia, que costumam comentar
tudo, ficam em silêncio. Isso deve significar que o que estou sentindo é
correto, que Eric é alguém em quem devemos ficar de olho. Talvez até
alguém que devamos temer.
+++
Durante mais de uma hora, vejo os outros iniciandos encararem seus
medos, correndo, pulando, apontando armas invisíveis e, em alguns casos,
deitados de bruços no chão, chorando. Às vezes, tenho uma ideia do que
eles estão vendo, dos medos rastejantes que os atormentam, mas, na
maioria dos casos, os vilões que tentam afastar são particulares, conhecidos
apenas por eles e por Amah.
Fico perto dos fundos da sala, estremecendo sempre que ele chama a
pessoa seguinte. Mas, de repente, sou o último, e Mia está acabando a
sessão, retirada da paisagem do medo quando está agachada perto da
parede dos fundos, com a cabeça nas mãos. Ela se levanta, aparentemente
esgotada, e se arrasta para fora da sala, sem esperar que Amah a dispense.
Ele olha para a última seringa na mesa e depois para mim.
– Somos só você e eu agora, Careta – diz ele. – Venha, vamos acabar logo
com isso.
Paro diante dele. Quase não sinto a agulha entrar; nunca tive medo de
injeções, mas alguns dos outros iniciandos ficaram com os olhos marejados
na vez deles. Entro na sala e encaro a janela, que, deste lado, parece um
espelho. No momento antes de a simulação fazer efeito, consigo ver a mim
mesmo da mesma maneira que os outros devem me ver, com os ombros
caídos e afogado nas roupas largas, alto, ossudo e sangrando. Tento ajeitar
a postura e me surpreendo com a diferença, com a sombra de força que
vejo em mim mesmo logo antes de a sala desaparecer.
Imagens fragmentadas preenchem a sala: o horizonte da nossa cidade, o
buraco na calçada sete andares abaixo de mim, a mureta sob meus pés. O
vento sobe pela lateral do prédio, mais forte do que quando estive ali na
vida real, atingindo as minhas roupas com tanta força que elas estalam e
me empurrando de todas as direções. De repente, o prédio cresce sob mim,
afastando-me ainda mais do chão. O buraco fecha, e o cimento duro o cobre.
Tento ir para longe da beirada, mas o vento não permite que eu recue.
Meu coração bate mais forte e mais rápido enquanto confronto a realidade
do que preciso fazer; preciso saltar outra vez, agora sem a garantia de que
não haverá dor ao atingir o chão.
Uma panqueca de Careta.
Balanço as mãos, fecho os olhos com força e solto um grito entre dentes
cerrados. Depois, sigo o empurrão do vento e desabo, rápido. Atinjo o chão.
Uma dor lancinante e escaldante atravessa o meu corpo apenas por um
segundo.
Eu me levanto, limpo a poeira das bochechas e espero o obstáculo
seguinte. Não tenho a menor ideia do que será. Não dediquei muito tempo
para pensar sobre meus medos, ou até mesmo sobre o que significaria
libertar-me do medo, vencê-lo. Ocorre-me que, sem o medo, eu poderia ser
forte, poderoso, implacável. A ideia me seduz por apenas um segundo,
quando sou atingido nas costas com força.
Depois, algo atinge uma costela esquerda, então uma direita, e, de
repente, estou enclausurado em uma caixa na qual cabe apenas o meu
corpo. A princípio, o choque me protege do pânico, mas depois respiro o ar
estagnado e encaro a escuridão, e minhas entranhas se espremem cada vez
mais. Não consigo mais respirar. Não consigo respirar.
Mordo o lábio para evitar um soluço. Não quero que Amah me veja
chorar, não quero que ele diga aos outros membros da Audácia que sou um
covarde. Preciso pensar, mas não consigo, sufocado dentro da caixa. A
parede às minhas costas é a mesma das lembranças de quando eu era
criança, trancado na escuridão do corredor do segundo andar, de castigo.
Eu nunca sabia quando aquilo acabaria, quantas horas passaria lá, preso
com monstros imaginários aterrorizando-me na escuridão, com o som do
choro da minha mãe atravessando as paredes.
Esmurro a parede à minha frente várias vezes, depois a arranho, embora
as farpas machuquem a pele sob minhas unhas. Levanto os antebraços e
atinjo a caixa com todo o peso do corpo, sem parar, fechando os olhos para
fingir que não estou aqui dentro, não estou. Deixe-me sair, deixe-me sair,
deixe-me sair, deixe-me sair.
– Pense em uma solução, Careta! – grita uma voz, e eu fico paralisado.
Lembro-me de que isso é uma simulação.
Pense em uma solução. Do que preciso para sair desta caixa? Preciso de
uma ferramenta, algo mais forte do que eu. Esbarro em algo com os dedos
do pé e me agacho para pegar. Mas, ao fazer isso, o topo da caixa se move
comigo, e não consigo mais levantar o corpo. Engulo um grito e encontro a
ponta afiada de um pé de cabra com os dedos. Eu o enfio entre as tábuas
que formam o canto esquerdo da caixa e empurro com toda a minha força.
Todas as tábuas abrem ao mesmo tempo e se espalham no chão ao meu
redor. Respiro o ar fresco, aliviado.
De repente, uma mulher aparece à minha frente. Não reconheço o seu
rosto, e suas roupas são brancas, não pertencem a nenhuma facção.
Caminho em direção a ela, e uma mesa surge diante de mim, com uma arma
e uma bala sobre ela. Franzo a testa ao olhá-la.
Isso é um medo?
– Quem é você? – pergunto, mas ela não responde.
O que preciso fazer está claro: carregar a arma e dispará-la. O terror se
assoma dentro de mim, tão poderoso quanto qualquer medo. Minha boca
fica seca, e, sem jeito, pego a arma e a bala. Nunca segurei uma arma e
demoro alguns segundos para descobrir como abrir o pente da pistola.
Nesses segundos penso na luz dos olhos dela se apagando, essa mulher
desconhecida, que não conheço bem o bastante para me importar.
Estou com medo. Estou com medo do que serei obrigado a fazer na
Audácia, do que terei vontade de fazer.
Medo de que possa haver algum tipo de violência oculta dentro de mim,
forjada pelo meu pai e pelos anos de silêncio aos quais minha facção me
submeteu.
Coloco a bala dentro do pente, seguro a arma com as duas mãos e o
corte na minha palma lateja. Olho para o rosto da mulher. O lábio inferior
dela estremece, e os olhos dela se enchem de lágrimas.
– Perdão – digo, e aperto o gatilho.
Vejo o buraco escuro que a bala cria no corpo dela, e a mulher desaba,
evaporando em uma nuvem de poeira ao atingir o chão.
Mas o terror não passa. Sei que há mais por vir; consigo sentir algo se
assomando dentro de mim. Marcus ainda não apareceu, mas ele aparecerá,
sei disso como sei o meu próprio nome. O nosso nome.
Um círculo de luz me envolve, e, na sua extremidade, vejo sapatos
cinzentos e gastos se aproximando. Marcus Eaton aparece na beirada do
círculo de luz, mas não o Marcus Eaton que conheço. Este tem fossos no
lugar dos olhos e uma enorme bocarra preta onde deveria estar a boca.
Outro Marcus Eaton para ao seu lado, e, aos poucos, ao redor de todo o
círculo, versões cada vez mais monstruosas do meu pai se aproximam para
me cercar, com bocas largas e desdentadas escancaradas, cabeças
inclinadas de maneira estranha. Cerro os punhos. Não é real. É óbvio que
não é real.
O primeiro Marcus desafivela o cinto e o tira da cintura, passador após
passador, e, enquanto faz isso, os outros Marcus repetem o movimento.
Então os cintos se transformam em cordas de metal com pontas farpadas.
Eles arrastam os cintos em linhas pelo chão, com suas línguas pretas e
oleosas deslizando pelo canto das bocas escuras. De repente, eles levantam
as cordas de metal, e eu solto um grito com toda a força, protegendo a
cabeça com os braços.
– É para o seu bem – dizem os Marcus com vozes metálicas em uníssono,
como um coral.
Sinto a dor rasgar, lacerar, retalhar. Caio de joelhos e ponho os braços ao
redor da cabeça, como se eles pudessem me proteger, mas nada pode me
proteger, nada. Solto outro grito, e mais outro, e mais outro, mas a dor
continua, assim como sua voz:
– Não aceitarei caprichos dentro da minha casa! Não criei o meu filho
para ser um mentiroso!
Não consigo escutar, não vou escutar.
A imagem da escultura que minha mãe me deu surge na minha mente de
forma espontânea. Vejo-a onde a coloquei, sobre a mesa, e a dor começa a
recuar. Concentro todo o pensamento na escultura e nos outros objetos
espalhados ao redor do quarto, quebrados, e na tampa do baú solta das
dobradiças. Lembro-me das mãos da minha mãe, com seus dedos finos,
fechando o baú, trancando-o e me entregando a chave.
Uma por uma, as vozes desaparecem, até que não resta mais nenhuma.
Deixo meus braços desabarem no chão, esperando o próximo obstáculo.
As juntas dos meus dedos arrastam no chão de pedra, frio e granuloso de
terra. Ouço passos e me preparo para o que virá a seguir, mas então escuto
a voz de Amah:
– Já? Já acabou? Meu Deus, Careta.
Ele para ao meu lado e me oferece a mão. Eu a seguro e deixo que ele me
ajude a levantar. Não olho para ele. Não quero ver a sua expressão. Não
quero que ele saiba o que sabe, não quero ser o iniciando patético cuja
infância foi problemática.
– Acho que devemos arrumar outro nome pra você – diz ele com
naturalidade. – Algo mais durão do que ‘Careta’. Como ‘Lâmina’, ‘Matador’
ou algo assim.
Então, olho para ele, que sorri um pouco. Vejo um resquício de pena em
seu sorriso, mas não tanto quanto pensei que veria.
– Se eu fosse você, também não iria querer revelar o meu nome para as
pessoas. Venha, vamos arrumar alguma coisa pra comer.
+++
Ao chegarmos ao refeitório, Amah me guia até a mesa dos iniciandos.
Alguns membros da Audácia já estão sentados ao redor, de olho no outro
lado do salão, de onde chefs com piercings e tatuagens ainda trazem a
comida. O refeitório é uma caverna iluminada por luzes azulesbranquiçadas
que conferem a tudo um brilho misterioso.
Sento-me em uma das cadeiras vazias.
– Nossa, Careta. Você parece prestes a desmaiar – diz Eric, e um dos
garotos da Franqueza abre um sorriso.
– Todos vocês saíram vivos – diz Amah. – Parabéns. Vocês sobreviveram
ao primeiro dia de iniciação, com níveis diferentes de sucesso. – Ele olha
para Eric. – Mas nenhum de vocês se saiu tão bem quanto Quatro aqui.
Ele aponta para mim ao falar. Franzo a testa. Quatro? Ele está se
referindo aos meus medos?
– Ei, Tori – grita Amah por cima do ombro. – Você já ouviu falar em
alguém que tenha apenas quatro medos na paisagem do medo?
– Pelo que sei, o recorde era sete ou oito. Por quê? – grita Tori de volta.
– Tenho um transferido aqui com apenas quatro medos.
Tori aponta para mim, e Amah assente.
– É um novo recorde – comenta ela.
– Muito bem – diz Amah pra mim. Depois, ele se vira e caminha até a
mesa de Tori.
Todos os outros iniciandos me encaram de olhos arregalados, em
silêncio. Antes da paisagem do medo, eu era apenas alguém em quem eles
podiam pisar em seu caminho para entrar na Audácia. Agora, sou como
Eric. Alguém em quem eles precisam ficar de olho, ou talvez até temer.
Amah me deu mais do que um novo nome. Ele me deu poder.
– Qual é o seu nome verdadeiro mesmo? Começa com E...? – pergunta
Eric com os olhos semicerrados. Como se ele soubesse algo, mas não tivesse
certeza sobre o momento certo para compartilhar a informação.
Os outros talvez também tenham uma vaga lembrança do meu nome, da
Cerimônia de Escolha, assim como eu tenho dos deles, apenas como letras
do alfabeto enterradas sob uma névoa de nervosismo enquanto eu
esperava a minha vez. Se eu causar impacto agora, o máximo que
conseguir, e me tornar tão memorável como alguém da Audácia, talvez
consiga me salvar.
Hesito por um instante, depois apoio os cotovelos na mesa e ergo uma
sobrancelha ao olhar para ele.
– Meu nome é Quatro. Se você me chamar de ‘Careta’ mais uma vez, nós
dois teremos um problema.
Ele revira os olhos, mas sei que fui bastante claro. Tenho um novo nome,
e isso significa que posso ser uma nova pessoa. Alguém que não aceita
comentários agressivos de sabichões da Erudição. Alguém que sabe ser
agressivo de volta.
Alguém, enfim, pronto para lutar.
Quatro.
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